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Meu fardo é leve

Ela olhou para os lados a fim de que alguém tivesse compaixão e a ajudasse a carregar suas bagagens, mas todos passavam por ela como se fosse invisível. Esbarravam, a jogavam para o lado sem dó nem piedade, outros a empurravam sabendo que sua mochila poderia estar pesada e de fato estava. A viagem havia sido demorada, a vida não estava sendo legal com ela. Seu pai estava em estado grave no Hospital, os médicos diziam que poucos dias lhe restavam. E como ela ficaria? Sua mãe havia lhe abandonado ainda com poucos meses de vida e seu pai era sua total referência de família.
Olhou mais uma vez para os lados, ninguém a esperava na rodoviária. Suspirou o mais forte que pôde a fim de não deixar as lágrimas caírem. Prendeu o cabelo em um coque, segurou uma das suas malas com uma mão e quando ia pegar a outra, uma mão tocou a sua. 
— Posso ajudar? — O senhor gentil, aparentava ter uns sessenta anos, estava com a barba por fazer e com trajes simples. Imaginei se ele havia filhos e filhas e por que o deixavam andar assim. Pobre homem! 
— Ah, não… não precisa! Obrigada. — Tentei ser educada ao máximo, mas sabia que aquele senhor não me ajudaria muito, poderia me atrapalhar e até me fazer perder o próximo ônibus.
— Eu posso te ajudar! Me dê essas suas malas! Onde você precisa ir? —Ele insistiu.
O encarei, incrédula com sua insistência, mas dessa vez não desperdicei sua ajuda.
— Bom, preciso chegar ao terminal onze para pegar o próximo ônibus. O senhor pode me ajudar?
— É pra isso que estou aqui, não é? Vamos! Mas antes, me dê sua mochila também.
— Não, precisa. Ela está leve! 
— Vamos, lá! Posso ver daqui que está pesada, moça! Aliás, me chamo Isaque.
— Sou, Heloísa. Ok, mas só se o senhor me deixar carregar essa sua bolsa de lado. Uma mão lava a outra!
— Certo, aqui está! — Ele me passou sua bolsa que por sinal estava leve, não parecia ter nada dentro e lhe dei minha mochila que estava demasiada pesada.
— As pessoas acharão que sou uma garota má, não devia deixar que o senhor leve todas essas bolsas.
— Disse, pensativa.
— Me chame de Isaque. E não é nada! Agora, vamos! — Começamos a caminhar e Isaque foi fazendo perguntas sobre minha vida, lhe contei sobre minha viagem cansativa, sobre a doença terminal do meu pai, sobre os fardos que venho carregando a respeito da minha vida pessoal e principalmente por não ter conhecido minha mãe.
— … É como se não houvesse esperança pra mim, sabe? — Lhe disse, esperando que ele me desse uma resposta concordando comigo.
— Na verdade, há uma esperança, Heloísa! Veja bem, você é uma jovem muito bonita, não deveria desperdiçar sua mente com esse tipo de pensamento. Sua vida pode estar uma bagunça agora, não se assuste, creia somente em Deus. — Ele me olhou e sorriu, um sorriso doce e profundo.
— Eu creio em Deus! Só não sei se Ele sabe que existo, as vezes acho que não. — Continuei, enquanto passávamos pelo terminal nove, mais alguns passos e logo chegaríamos ao meu local de embarque.
— Ah, Ele sabe sim, ôh se sabe! — Olhando para a placa acima de nós, ele ressaltou. — Chegamos!
— Não sei como te agradecer, Isaque. Você só pode ter sido enviado por Deus para me ajudar! Espero que não sinta dor por minha causa. — Sorri.
— Você é esperta, menina! — Ele ajeitou a boina surrada em sua cabeça e que deixava a mostra alguns fios brancos.
— Posso lhe dar um abraço? — Pedi e ele concordou com a cabeça, o abracei e fechei os olhos, assim que nos tocamos, meu coração parecia de certa forma aliviado, senti como se estivesse mais forte e poderia enfrentar um furacão caso viesse. Um alívio imediato. Ouvi o senhor sussurrar que tudo acabaria bem, que meu pai ficaria bem.
 

Abri os olhos para agradecer pelas palavras e não havia ninguém, olhei a minha volta e não o via mais.Mas, como? Pensei. Senti uma alça em meu ombro, e lembrei da sua bolsa que havia carregado para ele. Quase não a sinto de tão leve. E se dentro tivesse seus documentos ou telefone? Poderia de alguma forma contactá-lo. Comecei a investigar os bolsos da bolsa, e pelo lado de fora não havia nada, mas havia ainda o último bolso a ser visto, abri e encontrei um papel dentro, estava escrito:

Vinde a mim, todos os que estai cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve.”

 

Mateus 11:28-30
Fechei os meus olhos e deixei as lágrimas caírem, eu havia entendido. Tinha sido Ele, como eu não imaginei antes? Quem mais olharia por mim de tal forma? Ah, Deus… seu perfeito! Fechei mais uma vez meus olhos e agradeci. Ele não havia se esquecido de mim e me mostrou de maneira simples o quanto me ama, pois a maior prova de amor Ele demonstrou por mim na cruz.
 
Eu escrevi esse texto para um blog em conjunto com minhas amigas, mas fiquei a fim de postar aqui também. Qual é o seu fardo? Está pesado? Entregue a Ele.

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